sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Consciência Negra




Consciência negra. Lei N.º 10.639, de 9 de janeiro de 2003.O dia da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695.



Hoje é um dia em que os negros ficarão em “evidência”, suas conquistas, suas lutas e todo o injustificável martírio pelo qual eles foram submetidos. É indiscutível a importância do dia de hoje. Mas, uma dúvida cruel me acometeu, leis, comemorações, dia disso ou daquilo, mudam a consciência?Pra mim não.
Num país onde a miscigenação define o perfil da população desde os tempos dos portugueses e dos índios, onde nem mesmo o que se define o mais ariano, deixa de ter na sua árvore genealógica um pé ou até mesmo o corpo inteiro nessa amálgama de raças, como dizia Gilberto Freyre: "Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo, a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena e/ou do negro."
Essa consciência,sim, já deveria ser genuína. E não só no dia 20 de novembro, de cada ano dedicarmos nossa reflexão sobre a diferença racial, sobre a inserção ou não do negro numa sociedade onde a exclusão é o que fielmente traduz a condição do negro no Brasil, por mais contraditório que isso seja.
Afinal, o Brasil depois da África é o país que concentra a maior população negra do mundo e também onde os negros permanecem ocupando a mais baixa localização na pirâmide social, para mim isso é negar as origens, é negar cruelmente o sangue que corre em nossas veias. É repetir de forma velada todo o sofrimento da escravidão.
Consciência? O brasileiro está muito longe de chegar lá!

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Espera






Já fiz da minha insatisfação
Ioga acupuntura musculação

Já fiz do meu vazio
Culinária jardinagem suicídio

Já fiz da minha teimosia
Pintura crochê arqueologia

Já fiz da minha indignação
Drogas viagens contravenção


Só não inventaram nada, ainda, para a minha solidão...


Michelle Matias

quinta-feira, 10 de setembro de 2009






para morrer basta viver
mas a ilusão há de ser
o que nos faz crer
que seremos eternos...


Michelle Matias

terça-feira, 18 de agosto de 2009






Entre o ser e o ter
Por mais démodé
Sou.



Michelle Matias

sexta-feira, 14 de agosto de 2009







Por excomungar as convenções
Perdi a maldita decência
E me transformei num amontoado de afetações,
numa feroz velocidade de pensamentos insólitos
de rasos sentimentos e razões sem propósitos.
Contradigo-me,
Desfaço,
Definho.
Vou do ócio ao cio...
Corto costumes e caminhos
Corto os dedos que apontam a direção
De resquício, apenas algumas gotas diárias de solidão.


Michelle Matias

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Epitáfio







Aqui jazz um egocêntrico
Que escreveu nada além de sentimentos
Extremamente monotemático,
E temperamental desde os tempos da infância.
Michelle Matias





Foi por querer em demasia todos os sonhos que enlouqueci
Perdi o caminho que meus pés nulos percorriam
Na busca vã de dias sacros, muitas vezes amargos.
Acontece que perdi o sentido de haver sentido...
E providenciei de ser nada.
Só para ficar espreitando a loucura consumir...
Até poderia me retirar
Mas gosto de atravessar abismos.





Michelle Matias



quarta-feira, 8 de julho de 2009





Hoje eu me esqueci
Porque fiquei longe de ti
Será, talvez, porque não soube amar
O amor que dedicou a mim
Será que não era minha vez
E ele sempre chega pontualmente em horas erradas
Ou simplesmente eu não saiba repartir?
Hoje eu me lembrei de esquecer
O amor que até hoje arde em mim.
O amor que foi posto em minhas mãos distraídas.




Michelle Matias

quarta-feira, 17 de junho de 2009







Quando lhe vejo
O pavor é sempre o mesmo: você me pede um beijo.
E eu me rendo...
Vulnerável
e
Despida.
Michelle Matias







Desprevenida, passei por ti.
Vi em seus olhos insinuações de um beijo
Em meu corpo urgência, olhos de apelo.
Não falávamos de amor
Nem tampouco repartimos segredos
Apenas uma farsa adocicada entre mim e o seu desejo.

Michelle Matias

quinta-feira, 28 de maio de 2009






Entre nós
Ausência, surdez, cegueira.
Nada.
Nenhum eco.
Duram mais os amores silenciados.
Michelle Matias

domingo, 10 de maio de 2009







Escrevo pra colorir o papel gris
Que precisa de palavras que não se diz
Que precisa de inspiração para seguir
Escrevo pra fazer feliz
Pra dizer o que a razão não nos deixa sentir
Pra dizer o que me convém o que me condiz
Escrevo pro preto pro branco pro amarelo escrevo pra ti
Escrevo por que não sei o que vai ser de mim
Escrevo porque não consigo fugir
Escrevo.
Assim consigo existir.
Michelle Matias

quinta-feira, 7 de maio de 2009






Em outras palavras diria que ainda há chance.
Em outras palavras diria ser possível me ver em você.
Em outras palavras diria que o amor ainda é possível.
Em outras palavras eu até tentaria transformar (um pouco) o que em mim está cravado.
Em outras palavras, eu poderia ser a mulher que lhe dá um abraço.
A mulher que tens como regaço.
Mas assim como sou, não seria capaz de amar,
Como no dia em que houve amor.
Amar um homem que não sabe quem eu sou.


Michelle Matias




Se você ouvisse a voz que ouço...
A voz que me atravessa
Que traspassa meus ouvidos
E incidi sobre a alma,
com palavras que sobrevoam
O meu ser,
Preenchendo o inevitável esvaziamento (emocional)
O inevitável vazio.
Se você ouvisse a voz que ouço...
Essa voz que me diz
O que os sentidos querem dizer,
O que muitas vezes não sou capaz de conceber...
Acharia tudo o que acho, normal.

quarta-feira, 6 de maio de 2009





Ele me trouxe flores mortas
E ofereceu ao amor
Que foi embora...

Ao amor que ficou...
Apenas como ferida aberta
que não sangra e nem faz sentir dor.

Onde ficou apenas um espaço vazio
Atrelado aos mistérios que não foram repartidos...
Ao amor que não foi vivido em seu esplendor.


Não fomos cúmplices...
Não trocamos segredos íntimos
Não soubemos amar o amor...
Que nos foi permitido.
Michelle Matias

segunda-feira, 4 de maio de 2009






Tenho os olhos tristes...
Onde se vê que não é meu
O meu lugar...

Em minha carne tenho todos os desejos
Todo o sabor da vida...
Todo o sabor da morte...

Tenho na alma toda imensidão do mar
Que cobre de água salgada os olhos tristes
E a carne de tormentas ...

Tenho no espírito enigmas...
Que só apontam pro que é maior que a minha existência.
Michelle Matias






Hoje acordei
Sem saber...
Se vivi
Ou se sonhei.
Michelle Matias




Extravaso
Repúdio
Critico
Toda a bestialidade humana
Toda a soberba dos “reis” sem coroa
Toda a pobreza do que é mesquinho
Toda a superficialidade que há em nosso caminho
Toda a humanidade sem um traço de humanitarismo
Toda “Tv” que empobrece nossa capacidade intelectual
E tudo aquilo que cheira a religião e não engrandece o espírito.


Michelle Matias

quinta-feira, 30 de abril de 2009





Na sedução de teus olhos senti o êxtase
Olhos jamais esquecidos – hoje somente saudade.
Tua pele tantas vezes como segunda pele em mim - ficou somente a impressão.
Sua respiração em compasso com a minha - total ligação.
Às vezes era amor, às vezes carnal
Mas, ainda em mim está cru...
O tempo não o tornou banal.


Michelle Matias

quarta-feira, 8 de abril de 2009





Ainda sim sou alguém
Mesmo nas incontáveis vezes
Que me fizesse aquém

Ainda sim consigo enxergar
Na noite densa e sem luzes estrelares...
A aurora que há de chegar...

Ainda sim o meu sangue há de jorrar
Mesmo tendo muitas vezes...
Feito-me sangrar...

Ainda sim tenho nas mãos flores
Mesmo que em meu jardim
Sua erva daninha venha devastar...

E saiba...
Minha alma tem asas
E nada a impedirá de voar...

Michelle Matias

sábado, 4 de abril de 2009





Mordo como quem beija.
Grito como quem cala.
Bato como quem afaga.
Amo como quem respira.
Acordo como quem nasce.
Durmo como quem morre...
Tudo em mim é derradeiro...
Amargo e doce.


Michelle Matias

sexta-feira, 3 de abril de 2009




Eu não sei porque estou...
A decifrar em meus sentidos
O sentido de existir
Talvez apenas não sei aonde ir
Apenas vou pelo mundo, sentindo
Que por algum motivo estou...
Decifrando o que me faz viver
Na leveza e na atroz delicia de ser.
Sem saber pra onde vou ...
Querendo ver o sol.
Querendo ver por cima do muro.
Através do horizonte.








Michelle Matias

quinta-feira, 2 de abril de 2009





Crianças não nascem más.
Crianças não nascem racistas.
Crianças não nascem hipócritas.
Crianças não nascem reduzidas.
Crianças não nascem preconceituosas.
Crianças não nascem capitalistas.
Crianças nascem puras, genuínas, criativas.
Mas são adestradas,
Induzidas, resumidas...
Crianças são abatidas em pleno vôo.


Michelle Matias





Passará esta noite interna
De obscuros pensamentos
De insensatos sentimentos
De respostas incertas...

Passará a inquietação
De ser e não saber porque
de querer e não saber o que
De sentir e não controlar a emoção.

Passará a dor de existir...
A dor de não sentir
Calmaria em dias calmos.

Será que me satisfaz
A insatisfação?
E porque me inquieta
A inquietação?








Michelle Matias

quarta-feira, 1 de abril de 2009





Às vezes me afundo tão raso...
Que não há como me salvar
Afogo-me em superfícies abstratas
Aonde não há como me agarrar...

Entrego - me aos tormentos e a dor...
Envoltos na sombra de minha imaginação
E entrego meu torpor
Prometido as águas da desilusão.

Mas só a alma me suspenderá...
Rumo a algum lugar...
Antes que eu padeça
E não consiga me salvar...




Michelle Matias






O clamor das coisas pulsava...
Dentro do peito.
Senti a vibração do meu próprio sentido.
Fui aos poucos tomando consciência...
De tudo, de mim.
Batia na alma o sangue que corria em minhas veias.
E onde só havia pedras, fez-se flor.
Michelle Matias





Hoje descobri que estou viva
E não sonho.
Percebo que me encontro numa cadeira elétrica desligada...
Onde não há gozo, nem tormento.
E sinto que preciso perder a mim mesma...
A fim de me encontrar.
Pois o que hei perder é infinitamente menor
Do que aquilo que hei de ganhar.
E arrancarei o véu
Que não me deixa enxergar...
E verei que posso ser mais que uma gota d’água
Na imensidão do mar.



Michelle Matias

quarta-feira, 25 de março de 2009





Em meus atos há sempre o recato
E tudo que transparece disfarço
Tenho medo do conhecimento mútuo
E muitas vezes prefiro ficar mudo.

O brilho é maior quando não se dividi o mesmo prato
A falta de rotina deixa o céu mais estrelado
O mistério torna tudo mais belo.
Não me apego ao eterno.

Não me controle
Nem tampouco me sufoque
Não me ache em seu domínio


Não sou mulher de um só caminho
Gosto de me perder, para me encontrar.
E não há nada que me faça mudar.



Michelle Matias





Às vezes tenho lembranças que não são minhas
e que nem sei ao certo se as vivi
é como se houvesse outra vida
da qual eu não fiz parte.

Ou será a vida que inventei pra mim
A vida que me foi tirada
E que idealizo nos sonhos
Como forma de sobreviver ao real

Assim posso apagar as tentativas
Extravios, dias inúteis, sofrimentos perdidos.

Não será o sonho uma infinita e confusa atividade
Onde ensaiamos a vida?
E que no final resta uma fulgaz sensação de realização?
Apenas alguns instantes de frágil felicidade?
De uma felicidade fantasiosa...

Sonhos: idéias e imagens confusas que se apresentam ao nosso espírito.
Algo entre a utopia e a realidade.




Michelle Matias





Nada te ofereço.
Além de indiferente gemido
Além de minha agonia em viver
Minha insatisfação em não amar
Aquele amor lírico, infinito.
Não acredito no eterno
E peso o amor através
De vibrações, instintos.




Michelle Matias




De todos os livros que li
Principalmente aqueles que me leram
Não sei o que realmente aprendi
Mas sei do vazio que alguns preencheram
Saúdo a volúpia em cada texto lido, cada Livro acabado.
Cada instante acalmado pelas linhas da imaginação...

E fico extasiado, aflito com todos os livros que ainda hei de ler...
Com todas as palavras que ainda desconheço
Com todos os nomes e desnomes que as coisas (não) tem.
Mas sei que amo a arte e amo porque é arte, e só!





Michelle Matias





Rosas, Velas...
Vinho rose,
Eu e você.
Garçom: amor para dois!

sábado, 14 de fevereiro de 2009







O que fazes sentado sobre o esterco?
Da vaidade
Do orgulho
Do enfático discurso
Da indignação
Dos prazeres sem fundamento
Da sede de possuir o que não está ao alcance das mãos
O que fazes sentado como se toda consternação estivesse em seu coração?
O que fazes da vida além de deixar passar tudo em vão?

Michelle Matias





Transformo minhas mentiras em inverdades
O caminho é tortuoso quando não se diz a verdade
Mas não as verdades cotidianas, nas quais transformamos em mentiras necessárias...
O que corrompe são verdades embebidas de valores e sentimentos
Que transformamos em mentiras perigosas, em erros irreparáveis.
Não as dizemos por fraqueza
Por julgar a verdade, em momentos cruciais, desnecessária.
Ou como uma saída para não ferir alguém.
Mas o que feri não é a mentira?
Então porque a verdade dói?
O que se sabe é que a verdade muitas vezes não vem
E se vem, quanto de verdade um ser humano pode suportar?
Michelle Matias



Saí,
A fim de encontrar comigo mesma
Andei por cidades, ruas e becos
na idéia de encontrar em algum lugar
o que em mim está perdido
Procurei incessantemente
ardorosamente por alguma migalha de mim
por um sinal, por um gesto que indique
que ainda há um verdadeiro “eu”
E que este não foi devorado, apagado
pela influência alheia.

Saí,
para dentro de mim.
Percorri todas as mágoas esquecidas
toda a vida que já fazia parte do passado
toda a vida que era presente e toda expectativa do futuro...
Queria entender o que a vida fez de mim.
Queria ver-me.
E quando dei por mim
estava amedontrada, desnorteada...
ouvindo vozes perturbadoras
e pensamentos confusos
Já não sabia
o que
pra que
e nem se era eu.
ou quem era(?)
E por um instante a loucura quase domina o que resta de são em mim.
Michelle Matias.





Queria fugir do meu falso “eu”
Um “eu” que não sei quem me impôs,
e que engole no primeiro sopro de vida a liberdade
Liberdade de descobrir pelo caminho o que nos faz de verdade
Descobrir por instinto o que nos torna humano

Mas não, não nos deixam respirar o ar da escolha
O ar da pureza, da descoberta interior
Não, eles
nos conduzem
Nos induzem
Nos educam
Nos indicam o itinerário
E nos vestem de moral, preconceitos, e valores,
que julgam eternos.

E quando um fio de lucidez ilumina o corpo e as idéias
Já não sabemos distinguir o que é genuíno
Já estamos embebidos com a voraz ancestralidade.
Com a inevitável convenção humana.
Michelle Matias





O dia começa
E a cada manhã despertada
penso que aquele dia será como os outros: iguais.
E a cada abrir de olhos sinto esvair de minha mãos os dias do passado
No qual não há nada além de lembranças
Pois são elas que me fazem acreditar que hoje posso ser mais forte
que hoje posso tentar ser diferente
Que as magoas perdoei, ando de queixo erguido...
E superei os sonhos interrompidos
Então saio da cama e sobrevivo a mais um dia
mês, ano.
E não diferencio lágrimas de dor
com a alegria de mais um dia vencido.

Michelle Matias

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009




a pia cheia de louça
O sofá é mais convidativo
nunca fui mulher de encontrar essência entre dertegentes e abrasivos
rastros de pés mostram a poeira já impregnada no piso
e o amontoado de roupas mostram o descaso sentido
em minha casa deixo externo o que há no intimo
e a cada desordem comprova-se a vida que tenho vivido
Cada um faz o que pode pra expressar o abismo.


Michelle Matias


A partir de amanhã não bebo mais, assim não me permito pensar em você, não abro mais meus e-mails e não me importo com caixas-postais tudo que lembrar seu nome eu esqueço, não me remeto a tempos primordiais.
Suas fotos guardei no alto aonde há dificuldade em horas de desespero, em horas fatais
Músicas, já não as ouço, aqueles discos já não tenho mais
Nem me permito sonhar com seu rosto, amanhã já não durmo mais.
Se lhe vir na rua, dou um sorriso torto e verás
que não velo mais o seu corpo, sai do luto.
E tirei do peito as suas iniciais.


Michelle Matias


Absorvo a cada introspecção
nova releitura de mim mesma
Novas saídas, novas verdades
Inevitáveis verdades...

Os pulsos já roxos pelas amarras da vida
delatam a agonia em viver, a dor de ser humano
e a cruel realidade do caminho que se percorre

Somente meu refúgio interior me liberta das pressões externas
da loucura alheia, da influência dos homens...
Somente o mergulho na minha real essência me faz acreditar naquilo que realmente sou (ou gostaria de ser)


Não quero macular o que ainda há de verdadeiro
Nem tampouco deixar passar o que há de bom
Quero manter vivo o que há de mais humano e diáfano em mim...

Michelle Matias


Eu que muitas vezes fui amada
E o caminho infinito, cheio de possibilidades...
Eu que outrora tinha a candura dos anjos

Agora tão cativa
Mergulhada no abismo do silêncio
Na sombra da imaginação
Com o coração que incomoda como a um corpo estranho
Eu que tinha a voz da verdade
e que lutava com voracidade
sem medo da liberdade

Agora tão alheia
Afogando-me em um mar de indiferenças
com o pudor entranhado em mim
Com o triste sentimento de não haver mais intocáveis

Eu que fui feliz
E agora um anjo decaído toma minha mão e indica o caminho para o nada


Michelle Matias

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009






Arrasto meus passos em caminhos infinitos
Espectros povoam minha mente
E o amanhã me desespera
Consolo-me na espera da noite e suas luzes estrelares
Às vezes mulher obscura
Às vezes mulher de raros tesouros
Às vezes estremecida de espanto
Em verdade agonizo, parada no meio fio.

Michelle Matias



Não quero participar do demente culto
À mulher-nádega
Ao sensacionalismo barato
Aos quinze minutos de fama fabricado
À beleza forçada, esticada.
Às futilidades, vaidades.
Ao indigesto “é preciso”:
È preciso ter, é preciso correr, é preciso comprar, é preciso trocar, é preciso lembrar (ser lembrando), é preciso sorrir, é preciso mentir, é preciso evoluir, é preciso alisar, é preciso amar (ser amado), é preciso escolher, é preciso ganhar, é preciso viver (!?)...
Não quero precisar, mas haja ser humano pra deturpar.

Michelle Matias


Queria rimar para você
Palavras dignas
Com o português claro
Mas não sou poeta e nem tenho dicionário
Minhas metáforas são forçadas e artificiais
Não há rima, nem versos.
Mas se cartas de amor podem ser ridículas
Porque meus versos não podem ser originais


Michelle Matias



Na lida insana da vida
Não me deixo vender,
Não me deixo sufocar
Pelo discurso verborrágico
Que habita nossas cabeças
Pelo coração mesquinho que se preocupa com a vida alheia
Com pessoas alteradas, alienadas que moram ao lado.
Só fico à margem gargalhando sobre esse saco de mau cheiro, sobre essa loucura,
desespero.
Michelle Matias




Quero correr o pano
Sepultar todas as mentiras
Exilar toda a infâmia
E embrenhar-me no imo...
Para deixar na escuridão, no ermo...
Toda as mazelas que me foi deixada
Por desventura.
Por atroz desengano.

Michelle Matias


Livre-me do eufemismo social
Do cinismo eleitoral
Do poder irracional
Do burguês bestial
Do hipocondríaco mortal
Livre-me da escória
Das mazelas
Da carnificina nacional.


Michelle Matias






Escondo verdades
Mentiras...
Certezas...
Incertezas...
Sou cheia de sonhos incertos
Que poderiam ser certos
Como a vida.
Mas sempre deixo a porta entreaberta
Na qual não entra nem sai, tudo fica no meio...
Do caminho.

Michelle Matias




Decidi.
Vou forjar uma fuga
Não vou deixar pistas, sinais visuais...
Vou vestir meu vestido de chita,
Fumar ópio
E livrar-me da má influência dos signos astrais
Que sempre diz: Hoje é seu dia de sorte
Vou ser minha própria sorte.
Não vou morrer na fogueira da rotina
E nem me apegar às efemeridades das coisas
Serei o próprio efêmero.
O meu próprio caminho (ou desvio.).

Michelle Matias



Abri a janela
E respirei o límpido ar da lucidez
E junto à minha mandala meditei
Sobre o mundo tantas vezes “caduco”
Tantas vezes soturno.
Não padeço, não me sinto convulso.
Sepultei tudo que há de inútil neste mundo cheio de inutilidades
Curei a ferida de ser humano, de ser fraco.
Apenas vivo, pois a vida é uma dança onde não se escolhe o par.

Michelle Matias