sábado, 14 de fevereiro de 2009







O que fazes sentado sobre o esterco?
Da vaidade
Do orgulho
Do enfático discurso
Da indignação
Dos prazeres sem fundamento
Da sede de possuir o que não está ao alcance das mãos
O que fazes sentado como se toda consternação estivesse em seu coração?
O que fazes da vida além de deixar passar tudo em vão?

Michelle Matias





Transformo minhas mentiras em inverdades
O caminho é tortuoso quando não se diz a verdade
Mas não as verdades cotidianas, nas quais transformamos em mentiras necessárias...
O que corrompe são verdades embebidas de valores e sentimentos
Que transformamos em mentiras perigosas, em erros irreparáveis.
Não as dizemos por fraqueza
Por julgar a verdade, em momentos cruciais, desnecessária.
Ou como uma saída para não ferir alguém.
Mas o que feri não é a mentira?
Então porque a verdade dói?
O que se sabe é que a verdade muitas vezes não vem
E se vem, quanto de verdade um ser humano pode suportar?
Michelle Matias



Saí,
A fim de encontrar comigo mesma
Andei por cidades, ruas e becos
na idéia de encontrar em algum lugar
o que em mim está perdido
Procurei incessantemente
ardorosamente por alguma migalha de mim
por um sinal, por um gesto que indique
que ainda há um verdadeiro “eu”
E que este não foi devorado, apagado
pela influência alheia.

Saí,
para dentro de mim.
Percorri todas as mágoas esquecidas
toda a vida que já fazia parte do passado
toda a vida que era presente e toda expectativa do futuro...
Queria entender o que a vida fez de mim.
Queria ver-me.
E quando dei por mim
estava amedontrada, desnorteada...
ouvindo vozes perturbadoras
e pensamentos confusos
Já não sabia
o que
pra que
e nem se era eu.
ou quem era(?)
E por um instante a loucura quase domina o que resta de são em mim.
Michelle Matias.





Queria fugir do meu falso “eu”
Um “eu” que não sei quem me impôs,
e que engole no primeiro sopro de vida a liberdade
Liberdade de descobrir pelo caminho o que nos faz de verdade
Descobrir por instinto o que nos torna humano

Mas não, não nos deixam respirar o ar da escolha
O ar da pureza, da descoberta interior
Não, eles
nos conduzem
Nos induzem
Nos educam
Nos indicam o itinerário
E nos vestem de moral, preconceitos, e valores,
que julgam eternos.

E quando um fio de lucidez ilumina o corpo e as idéias
Já não sabemos distinguir o que é genuíno
Já estamos embebidos com a voraz ancestralidade.
Com a inevitável convenção humana.
Michelle Matias





O dia começa
E a cada manhã despertada
penso que aquele dia será como os outros: iguais.
E a cada abrir de olhos sinto esvair de minha mãos os dias do passado
No qual não há nada além de lembranças
Pois são elas que me fazem acreditar que hoje posso ser mais forte
que hoje posso tentar ser diferente
Que as magoas perdoei, ando de queixo erguido...
E superei os sonhos interrompidos
Então saio da cama e sobrevivo a mais um dia
mês, ano.
E não diferencio lágrimas de dor
com a alegria de mais um dia vencido.

Michelle Matias